O Jardim Espejos del Cielo, memorias andinas traduz o pulsar dos pântanos altiplânicos dos Andes centrais da América do Sul (Peru, Bolívia e Chile), essenciais para a biodiversidade e as comunidades humanas, num jardim que alterna um corpo de água límpida e ilhotas verdes, com musgos e almofadas de vegetação, pequenas flores e gramíneas resistentes. A pegada é contida e porosa: caminha-se sobre rochas, nunca sobre o pântano. Dois assentos semicirculares construídos em pedra convidam à contemplação. O conjunto celebra a resiliência e a memória andina, aproximando o público europeu de um ecossistema escasso e frágil, cujo cuidado é fundamental face à crise climática.
Os bofedales, zonas húmidas de altitude situadas nos Andes, caracterizam-se pela sua vegetação hidromórfica e pela acumulação de turfa em solos saturados de água, seja permanente ou sazonalmente. Estes ecossistemas altiplânicos são extremos e vitais: pequenas manchas especializadas de vida em altitude, reservatórios de água e carbono. Transmitem resiliência no mínimo, ao contrário das zonas húmidas europeias, que são diversas e multifuncionais, com maior biodiversidade e complexidade ecológica. Inspiramo-nos nessas infraestruturas naturais que fazem parte da paisagem andina para projetar um jardim que evoca o bofedal altiplânico, mas com espécies que se adaptam ao clima atlântico de Portugal e que se encontram em viveiros locais.
O jardim está estruturado com base num sistema de espelhos de água irregulares, com bordas suavemente elevadas, que se conectam como meandros, simulando a filtração natural do pântano, onde a água recircula subtilmente. É gerada uma topografia, onde o solo é trabalhado em pequenos desníveis leves, que alternam zonas húmidas e secas, deixando ilhas verdes rodeadas de água, acessíveis apenas visualmente, formando uma atmosfera com som suave da água. Predominam cores como verdes variados, amarelos secos, castanhos terra e pontos azuis. A inspiração remete o visitante para um ecossistema de altitude, onde a água e a vegetação formam mosaicos orgânicos. Uma “paisagem suspensa no tempo”, representada por água, pastos e vento.